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Publicado por gusmao em 24/05/2009  
De Santos a Porto Belo

Diário de Bordo 103

De Santos a Floripa

Depois de um longo papo com Vilfredo Schürmann sobre seus novos projetos, que me adianto em dizer que não recebi autorização para divulgar, sai de Santos às 7h da manhã de segunda-feira dia 18.

A previsão indicava ventos de Leste – Nordeste e um novo vento Sul para a tarde de terça-feira, dia 19. Essa região entre Santos e Peruíbe está "marcada" pelos navegadores como área de pirataria, assim como a região de Bertioga, ao norte de Santos, por isso, é preciso tomar muito cuidado ao navegar à noite nesta região. Dormir nas proximidades de Bertioga, nem pensar.

Fiz meu plano de navegação para chegar a São Francisco do Sul, a 170 milhas de Santos, com opção de parar na Ilha de Bom Abrigo a 110 milhas, ou em Ilha do Mel a 140 milhas.

É muito raro eu comprar peixe para levar a bordo, mas como sabia que nessa região a pesca está escassa, comprei umas postas de cação e fiz para o almoço, no forno, com leite de côco e arroz branco.

Calmaria até a tarde, depois um vento Leste.

O vento Sul previsto para depois do meio-dia de terça adiantou e entrou às 7h da manhã.  Resisti o quanto pude, mas ele já andava na casa dos 20 nós com tendências a rajadas maiores, então resolvi entrar na Ilha do Mel, já com Vela Grande na primeira forra e Genoa 3.

A Ilha do Mel não é dos melhores lugares para jogar ancora. Por ali existe um barranco, a 100 metros da praia, onde a profundidade passa de 20 para 1,5 metros. Para não encalhar você acaba tendo que ancorar num local onde há uma forte  corrente de vazante, fazendo o barco girar constantemente, encepando* o cabo na quilha, e fazendo o barco garrar.

Aproveite para conectar a internet, fazer alguns telefonemas e em seguida fui almoçar. No cardápio, frango com legumes e  arroz com ervas.

Descansei durante a tarde, mas a noite fiz um plantão com sonos de uma hora.

Já estava fora de casa há 50 dias, menos dias que em outras etapas, mas acho que a proximidade de casa, gerou certa ansiedade para chegada.  

Saí de Ilha do Mel, 4h da madrugada do dia 20, quarta-feira, fugindo dos giros que o arco dava naquela forte correnteza e  aproveitando a maré vazante e um vento terral rumo a Porto Belo.

O dia começou nublado e às 12h, já nas proximidades da Ilha da Paz, abriu o Sol, o vento parou e comecei os preparativos para o almoço. Como o clima deu uma esquentada e me lembrei que já não tinha banho desde domingo, desliguei o fogão e aproveitei o calor para o banho no cockpit – é a melhor hora para tomar banho em épocas de frio nos barcos sem aquecimento de água como o Moleque.

Banho tomado, voltei ao fogão, coloquei as panelas em um balcão, acendi novamente o fogo, devolvi as panelas ao fogo, fui a geladeira pegar água, e senti um cheiro muito forte de queimado. Voltei meus olhos para o fogão e ele estava em labaredas. Levantei uma das panelas e vi que o tecido antiderrapante que cobria o balcão onde tinha colocado as panelas ficou grudado e foi ao fogo. Imediatamente desliguei o fogão e consegui, com muito custo, tirar as panelas, peguei o tal tecido e lancei ao mar.

Passado o susto, me lembrei que estava prestes a passar por uma região onde tinha uma grande concentração de navios ancorados, perto do porto de São Francisco do Sul. E como diz aquele velho ditado, um olho na missa, outro no padre, comecei a cuidar do meu rumo e cada instante dava uma olhada para a proa, com toda concentração. Numa dessas subidas, me deparei com um enorme navio vindo a todo vapor a estibordo.  Desliguei o piloto, assumi o leme, e desviei. (Ver filme).

Quero chamar a atenção aqui, porque a maioria dos acidentes com navios acontece com eles vindo pela popa ou través. Segundo susto do dia. Já refeito após alguns minutos, devorei meu almoço - carne ensopada com legumes e macarrão.

No começo da tarde já andava com vento Leste aumentando e indo para direção Nordeste com o passar do dia, chegando a 12 nós.

Cheguei ao Caixa D'Aço, região de Porto Belo, às 22h. Estava novamente me sentindo em casa, aqui foi meu primeiro porto de parada.

Bateu a ansiedade.

Daqui vou pra casa!

*encepando – enrolando

Foto 1 – Gaivota fazendo pose para foto em Porto Belo

Foto 2 – Por do Sol no litoral Paulista

Foto 3 – Entrada de uma frente fria de Sul

Foto 4 – Por do Sol no litoral Catarinense

Foto 5 – Quase rumo de colisão.

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