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Publicado por gusmao em 11/05/2009  
De Vitória ao Rio de Janeiro

Diário de Bordo 101

De Vitória a Salvador

Depois de instalar o piloto emprestado, sai do ICES, em Vitória, às 9h da matina do dia 4, terça-feira. Chovia fraco, mas logo parou e o tempo se manteve nublado.

O mar na baía de Vitória é muito mexido, portanto, deixei para colocar a Vela Grande em mar aberto, onde vi que estava com menos ondas, e fiquei atento aos baixios. Tempos atrás, um casal perdeu um veleiro O'day 23 numa enorme onda num desses baixios.

Mesmo a motor, sempre navego com pelo menos a Vela Grande encima, mesmo sem vento, ou contra o vento. A previsão era de ventos do quadrante Leste, mas pela manhã e noite, sopra sempre um terral em Vitória.

Velas pra cima, Nordeste de 12 nós, o Moleque já andava 5,5 nós. Almocei um frango na cerveja e fui descansar, mas em seguida senti o barco mudar de rumo. Não deu outra, o piloto que consegui com meu amigo também deu pau. Já estava a 30 milhas de Vitória, e cheguei tentar uma arrumação, mas foi em vão.  

"Andar de vento em popa, por mais 210 milhas até o Rio, seria uma tortura"! Nessas horas da saudade de um contravento. Com o leme amarrado o Moleque veleja sozinho sem problemas. Decidi então por dar volta. Eram 4h da tarde, tinha um contravento pela frente de 30 milhas até Vitória, mas pelo menos não precisava passar essas próximas seis horas no leme. Cheguei a Vitória às 22h30min.

Depois de curtir uma gripe de três dias, instalei o piloto, desta vez um novo, um Sinrad 22, comprado na Equinautic de Porto Alegre, e saí na sexta-feira às 10h30min em direção ao Rio, depois de mais três dias de vento Sul em Vitória.

Segundo a previsão, sabia que ia andar um bom tempo com vento Sul fraco, mas, como tinha um novo ciclone com ondas grandes previsto para a área Charlie* para o dia 10 – domingo, resolvi me adiantar e pegar o vento Leste mais perto do Cabo São Tomé, tentando chegar ao Rio antes do ciclone. Caso a previsão de ciclone persistisse, ou adiantasse, entraria em Cabo Frio, mas não imaginava que tinha que enfrentar uma maré contra de até 1,5 nós.

Para o almoço, Picanha no sal grosso ao forno, com macarrão alho e óleo. Andei com vento Sul o dia todo e pedaço da noite, passando o temido Cabo São Tomé, as 7h da manhã, com calmaria total, já sem corrente contra, onde a Costa Brasileira toma rumo Sudoeste. Troquei o rumo de 216° para 252°, em direção a Cabo Frio.

Os navegadores respeitam muito esses "Cabos".

"Cabos, são braços de terras, em sua maioria altas, que avançam mar adentro, criando normalmente condições de grandes marés, ondas grandes e ventos fortes, muito diferente do resto do litoral. Exemplos no Brasil são os: Cabo Santa Marta, Cabo Frio, Cabo São Tomé".

Avistei ao meu través o arquipélago de Santana. Antigamente era comum, nos campeonatos de oceano, fazer regatas de longo percurso enormes. Na década de 80, Búzios sediou, acho que o único Circuito Rio fora do Iate Clube do Rio de Janeiro, e eu, na época de Crijulo,  um 30 pés, do Comandante Renato Scheidt, corremos essa regata, que largou na Escola Naval na Baía da Guanabara no Rio, montou o arquipélago de Santana, montou uma outra ilha que não me recordo o nome em Cabo Frio, e finalmente chegou a Búzios dois dias depois. Um absurdo de grande!!!

Coloquei a linha n'água cedo, mas peixe que é bom nada. Deixei as comidas light de lado e apelei para um strogonoff de frango com macarrão.

Às 14h recebia de várias estações os avisos de Chamada Geral pelo Rádio VHF.

Troquei algumas palavras com "Casemiro de Abreu", aparentemente um rádio amador se divertindo num sábado a tarde. Ele disse que tinha recebido, da Marinha do Brasil, um aviso de ressaca para o Norte de 24° de Lat, região Charlie. Perguntei a ele sobre ventos, ele me pediu um tempo, me chamando depois de uns 15 minutos, me tranqüilizando quando aos ventos, era somente mar.

As áreas Charlie e Delta, esse ano, nessa época, estão virados no capeta. Tem ciclone toda semana.

O vento Leste foi aumentando, coloquei a Vela Grande na 1ª forra de rizo*, diminui a Genoa para tranqüilizar o piloto automático, que já estava prestes a dar uma atravessada.

Sem nenhuma surpresa, montei Cabo Frio, com ventos bem mais fortes e mar muito grande, junto com 4 navios, 3 rumo ao Sul, como eu, aparentemente para o mesmo destino, e um no sentido Norte, que resolveu passar entre nós e o Cabo.

Com o aumento de tráfego de navios na costa brasileira, já está na hora de criar as famosas estradas, principalmente nesses lugares de muito fluxo. Na Europa isso funciona muito bem. Em 2007, quando vim do Norte da França para o Brasil pude comprovar isso. Nos Cabos, ou "cotovelos" de maior movimento foram criadas demarcações que limitam onde esses monstros devem passar.

Após montar o Farol de Cabo Frio, passei do rumo 252°, passa-se a 295°!!! Chama atenção, como nessa parte da Costa Brasileira, vai-se cada vez mais para o sentido Oeste!!

Às 6h da manhã, já passava pelas Ilhas Maricás, um arquipélago a 15 milhas a Leste do Rio.

Não posso me esquecer, quando ainda era moleque, com 17 anos, na companhia de Hamilton Vasconcellos Filho, Paulinho Schaefer e Cláudio Contento, corremos o Mini – Circuito Rio, pra barcos até 25 pés, na época com o Molequinho, um Velamar 22. A regata longa era para Maricás, quando na volta, na entrada da barra da Baía da Guanabara, por pouco não fomos abalroados por uma fragata da Marinha. Passou tão perto, que o Torben Grael e seu tio Erick Schmidt, que estavam a barlavento, chegaram a baixar as velas do seu barco, outro Velamar 22, para nos socorrer.

Chegando no Rio, vindo do Norte, antes da Ilha do Pai e da Mãe, a Boreste, avistei o falso Pão de Açúcar, que ficou assim chamado, porque antigamente, navegadores que vinham do Norte aterrando no Rio de Janeiro - naquela época com navegação estimada, porque nem existia o GPS - acabavam se enganando com pedra semelhante ao Pão de Açúcar verdadeiro.

Aquele soninho da manhã ficou para outro dia. Aterrando na entrada de barra, a gente  tem que ficar ligado pois a quantidade barcos e pesqueiros é muito grande.

Cheguei ao ICRJ às 9h de Domingo. Parabéns a todas as Mães.

Acabei de ler o livro Retratos de Viagem, do meu amigo Osvaldo Hoffman, numa velejada de Porto Belo – SC a Porto Belo, via Caribe e Mediterrâneo. Relato muito interessante e atrativo e fica minha sugestão para quem gosta desse tipo de aventura.

Heloísa Schurmann, convida para o lançamento do Livro de Vilfredo Schurmann, NAVEGANDO COM O SUCESSO!!!

Helo, reserva já o meu!!!!

Em Vitória, e no ICES, Elétrica é com o Itamar, fone (027) 8136-2238.

"A arte de Velejar, é saber voltar". Sergio Santiago de Floripa.

*Forra de rizo – Dispositivo para diminuir a Vela de tamanho nos ventos fortes. Barcos de Cruzeiro tem de 2 a 4 forras.

*Área Charlie - Corresponde ao lado de fora de uma linha traçada de Florianópolis a Cabo Frio. O lado de dentro é a área Delta.

Foto 1 – Por do Sol - Rio das Ostras – Macaé

Foto 2 – Falso Pão de Açúcar

Foto 3 – Super Petroleiro saindo da baia da Guanabara

Foto 4 – Mesa de Navegação do Moleque

Foto 5 – Cozinha

Foto 6 – Biblioteca e Frutas

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