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Publicado por gusmao em 29/04/2009  
Fiz mais 500 milhas sem parar.

Salvador a Vitória

Depois de muitos dias de chuva em Salvador, achei uma "brechinha" na previsão e me mandei do Píer Salvador, na Ribeira. Antes de sair, no entanto, tomei um café da manhã com o Val, que fez inúmeras obras no Moleque, mais o Tziu, marinheiro do Píer. Foi um típico café baiano com inhame, café, pão de trigo e margarina.

Por volta do meio-dia zarpei, e como a previsão era de pouco vento, abasteci tudo que podia de diesel, no posto ao lado do Forte São Marcelo. Já na saída, no través do Yacht Clube da Bahia, estava colocando a Vela Grande e senti que o barco deu um giro de 360°. Vi que o piloto automático tinha deixado de funcionar de mais uma vez. Um pouco antes, na saída da Ribeira, ele já tinha parado por causa de um mal contato no painel elétrico. Mas desta vez parecia que a coisa era mais séria.

O tarugo, peça que pega na cana de leme, estava completamente solto. Foi aí que me lembrei dos conselhos dos meus amigos velejadores solitários. Várias vezes eles me disseram: "Tens que ter a bordo dois pilotos e três gps".

Eu só tenho um piloto, então precisei apelar pro Plano B, ou seja, levar o Moleque no "braço". Como virei um arruma tudo no barco desmontei a engronha e consertei. Pus então a Vela Grande para cima, rumo 205° a Abrolhos.

Várias vezes me peguei dando tchau para Salvador. Fiquei  por lá 13 dias, sendo que nos últimos, a chuva foi companheira inseparável. Na saída, claro, a chuvinha veio se despedir.

Passei o dia todo com vento do quadrante Sudeste de 5 a 10 nós. Mar de almirante. Quando escureceu veio a Lua Nova e um céu muito estrelado. O vento esteve bom até às 23h, depois tive que usar um pouco de motor.

Depois do último cochilo, por volta das 6h da matina notei, ao passar pelo depósito onde fica o banco de baterias de serviço, uma temperatura altíssima. Olhei para o voltímetro e ele marcava bateria a 16 volts. Enquanto o motor estava ligado, deixei a chave seletora para carregar somente as baterias de serviço, afinal iria precisar bastante delas no dia seguinte, mais isso não justificava esse excesso de carga, considerando-se que o carregador de baterias, nesse caso o alternador, tem uma chave automática que para de mandar carga às baterias quando elas estão completamente carregadas. Conclusão: ele não estava funcionando como deveria. Como eu ainda estava usando o motor, devido a uma calmaria, resolvi desligar o alternador e ficar somente com a carga da minha placa solar.

Aquele dia todo foi de vento muito fraco, abaixo dos 5 nós, e bem diferente de outras navegadas pelo litoral baiano, fiquei com linha n'água desde os primeiros raios de sol e nada de peixe.

O vento entrou somente às 16h, do quadrante Sudeste, mas no final de noite a calmaria voltou. O mar estava um espelho e era possível enxergar o reflexo das estrelas na água.  Estava no través de Santa Cruz de Cabrália e a quantidade de pesqueiros e bóias de pesca com estrobo impressionaram. Passei a noite toda de plantão pra não ser pescado por ninguém. Quem veleja em solitário fica mais tranqüilo quando é dia e é possível enxergar todo mundo.

Pela manhã, continuava aquela incansável calmaria e comecei a ficar preocupado com a autonomia de diesel. Minhas previsões eram de que entraria um vento Sudeste, ainda naquele dia, mas já eram 11h e nada do vento aparecer. Se a calmaria continuasse até Vitória, não teria diesel suficiente para chegar.

Avistei na proa, o que me parecia ser o último pesqueiro de tantos que já tinha passado. Era  o Claumar, um barco do Espírito Santo, e perguntei ao barqueiro se ele me arrumaria ou venderia 30 litros de diesel. Assim teria mais umas 15 horas de autonomia. Consegui 20 litros.

Tratei de jogar um grande cabo em direção ao pesqueiro – em mar aberto sempre se deve ficar longe de embarcações, pois o estrago pode ser grande  - mandei um camburão de 25 litros.

Já de saída, dando a volta para ficar longe do pesqueiro, me lembrei que não tinha pescado nada e como o barco deveria estar com o porão cheio de peixe não me intimidei e pedi um peixe também.

Os pescadores se entreolharam e um deles me perguntou quantas pessoas eu tinha a bordo. Respondi que eu era o único e um peixe bastava.

Preparei um saco com alguns brindes do Projeto, coloquei R$ 70,00 reais para pagar o diesel. Peguei os peixes e o camburão cheio até a boca, e atirei o saco, agradecendo em seguida e avisando que estava mandando alguns brindes para eles e uma grana para pagar o diesel.

O pescador, que parecia ser o comandante, retrucou em seguida, pedindo que eu voltasse ao barco pra pegar o dinheiro, mas não dei bola e me despedi. Acelerei o Moleque, enquando o comandante gritava para que eu voltasse pra pegar meu dinheiro de volta. É muito normal pesqueiros cederem alguns litros de diesel para veleiros, afinal seus estoques são enormes, mas dessa vez, resolvi pagar.

Ganhei dois peixes e com a fome apertando fui cuidar de prepará-los. De entrada fiz um sashimi. Depois preparei uma bela moqueca com dois tipos de peixe, já pensando no jantar. Almocei e fui tirar um cochilo à tarde, afinal, como já falei, durante o dia é mais seguro deixar no automático. Quando acordei, completei o tanque com o estoque de diesel e tomei meu banho.

Em seguida vi que o piloto automático mudava o rumo sucessivamente, sem controle, e pensei comigo mesmo: "Ainda bem que essas coisas acontecem quando estou acordado". Porém, quando essa mudança de rumo acontece durante um sono de turno não é difícil acordar com a mudança do movimento e novo balanço do barco. A gente parece que fica meio no automático também.

O relacionamento dos equipamentos eletrônicos e os navegadores é até certo ponto engraçado. A gente confia tanto neles, a ponto de deixar o barco por horas a fio sob o comando de um instrumento.

Por volta das 18h avistei o Farol de Abrolhos, um dos mais importantes para navegação na Costa Brasileira e que pode ser avistado a pelo menos umas 40 milhas de distância. Foi de arrepiar. Lembrei-me daquele dia, em 2007, quando fui junto a um oficial da Marinha, acender o Farol.

A 20 milhas de Abrolhos tentei o primeiro contato com Rádio Farol Abrolhos pelo Canal 16. Um pescador me disse para chamar no 18, mas nada. Por volta das 20h fiz um novo contato e fui atendido por um cidadão, que deseducamente me disse para chamar mais tarde, por volta das 21h, que teria uma nova previsão.

Já entre Abrolhos e o Parcel das Paredes, fiz nova chamada por volta das 21h15min, e outro cidadão, também muito mal educado, me passou a previsão depois de eu falar que estava passando por Abrolhos em direção a Vitória. "A previsão para a área entre Cabo Frio e Caravelas é de ventos de Nordeste a Sudeste e Sudoeste de até 21 nós", anunciou. E isso significava quase 360° de direção do vento.

Era noite do dia 26, tive vontade de perguntar se aquele Sul de 15 nós, previsto para o dia 27 e 28 estava confirmado, mas como senti muita má vontade, agradeci. Por segurança passei meus dados, meu porto de destino e hora prevista para chegada e me despedi.

Depois pensei comigo mesmo: "Bem que a Marinha poderia ter profissionais ou oficiais, preparados para amparar todo e qualquer navegador nestes locais estratégicos e importantes de navegação. Não apenas se limitar ter alguém pra ler o boletim que é passado durante todo o dia por rádio, via VHF. Eu sei que vários desses lugares, como Abrolhos têm internet e telefone.

Depois de jantar e carregar as baterias comecei os turnos de 30 minutos. A noite era de ventos de Oeste fracos. No último turno, acordei com a luz de alcançado (popa), o Chartt Ploter (gps) e a sonda, desligados. Olhei o voltímetro e o banco de baterias de serviço. Estavam zerado. Troquei o banco de baterias e o gps voltou a funcionar, mas a sonda e luz de alcançado, nada.

Eram 6h da matina quando entrou um vento Sudoeste fraco. Como o vento era exatamente na direção de Vitória, liguei o motor. Às 9h o vento estava mais forte e chovia, mas logo em seguida se acalmou. Era um vento local.

Voltei a velejar de contravento e às 13h as coisas começaram a mudar pra pior. Me peguei pensando se era hora de voltar a Abrolhos, ou se deveria seguir em frente. Faltavam 110 milhas para Vitória e Abrolhos estava a 70.

Estava sem sonda e com sérios problemas elétricos. Se voltasse, chegaria a Abrolhos com noite fechada e não conseguiria arrumar os equipamentos, então resolvi seguir em frente chegar a Vitória mais cedo para ter mais tempo de os equipamentos, antes do feriado do dia 1° de Maio. Como podem ver, os feriados atrapalham até mesmo quem está no Mar.

Tomar decisões como esta, sozinho, nem sempre é uma tarefa fácil. Mas em contra partida, se a decisão não for a mais acertada, você não terá ninguém para te cobrar depois.

O vento ficou cada vez mais forte, chegou à casa dos 25 nós e tive certeza que esse vento Sudoeste, era o restinho do ciclone que passou pelo litoral de SC, PR, SP e RJ nos dias 23, 24 e 25. Impressionante como um fenômeno desses chega tão longe.

As rajadas de vento eram muito fortes, o mar estava grande. Eu usava a Vela Grande ainda sem rizo e Genoa 4 no meu 2° estai de proa, aí entrou uma grande onda que se encarregou de molhar o que ainda estava seco. Era impressionante o tamanho da onda.

Numa delas, a água passou pelos cabos de adriças no Dog House, e encharcou todo o barco por dentro. Imaginem eu, que estava no cockipt, como não fiquei. Por essa hora já estava de roupa de tempo completa e usando o cinto de segurança por precaução.

Já no Pontal da Regência, 23h, o vento voltou a aumentar, estava nos 30 nós. Eu fazia um bordo para terra, com 2 rizos da Grande, e seguia afivelado no cinto de segurança, sendo jogado de um lado para o outro como se fosse uma pipoca no fundo da panela. Como estava chegando muito perto de terra e as ondas nas profundidades baixas tendem a aumentar, dei um bordo pra fora.

O vento baixou lá pela meia-noite, então aproveitei para dar um cochilo. Fui dormitando de 20 em 20 minutos até que no terceiro cochilo o barco cambou sozinho com o aumento de vento e uma onda enorme que desarmou o piloto. Subi ao cockpit, andando 1 hora para terra e 1 hora para o Mar entre as plataformas de petróleo daquela região, completamente encharcado, com as ondas que embarcavam no Moleque. Noite trabalhosa.

Amanheceu. O vento e o mar, que a meu ver deveriam acalmar, só aumentaram. Enfim:"To precisando mudar de "palpiteiro" do tempo". "Esses meus, estão com o palpite furado".

O Mar estava muito grande e com ondas gigantes de Sudoeste e vagalhões de Sul, vento de 30 a 35 nós. A sensação era de que alguma coisa iria se quebrar a qualquer momento e o casco não iria agüentar. Precavido fui dar uma olhada na minha mala de abandono. A cada momento ela ganhava coisas novas. A sensação era de fraqueza e o pensamento ficava embaralhado com coisas desagradáveis, mas a realidade me levava a pensar na parte prática. Tinha a certeza que iria sair daquela situação bem, mas só não sabia como.

Andei um pouco de través e popa, prevenindo o pior, até o mar voltar a baixar. Depois de algumas horas, numa baixada do mar, voltei ao rumo 230° para Vitória.

Vitória, que belo nome este para quem passa por um aperto. A cidade parecia uma bóia de barlavento de uma regata barla-sota, tamanha era a precisão do contravento. "Era um dia para estar num porto, e não aqui, pensei comigo".

Comi uns pedaços frango que tinha assado ao forno no começo da noite passada. Precaução acertada de achar que não poderia mais cozinhar até a chegada. Devido ao problema elétrico, desliguei a geladeira no dia anterior para economizar energia, as bebidas estavam todas quentes e as comidas que necessitavam de temperatura baixa para conservação, joguei fora. Antes, porém, aproveitei o que pude. Fora mesmo, coloquei 500g de carne moída que sempre levo de reserva de rancho. Em travessias, aproveito para comer somente carnes brancas, muita verdura e frutas.

Tenho alguma experiência em elétrica 12V, mas com certeza fazer um curso para entender 100%, afinal, 99% dos problemas a bordo são elétricos.

Tudo a bordo estava molhado e diante de uma situação como esta ainda aparecem entradas de água que você nem imagina que tivesse. É quase impossível fazer as tarefas do dia com o barco naquela posição e balançando daquele jeito. Sinceramente, não sei se o Moleque agüentaria toda essa pancadaria que passei se ele tivesse sido construído nos dias de hoje, com os padrões de construção de alguns barcos que conheço.

Quando estava a 15 milhas de Vitória, o vento baixou para 20 nós, e cheguei de contravento às 18h30min no Iate Clube do Espírito Santo, sem gps, sem bateria, com motor virado na manivela. Restava-me a sonda, que consegui consertar, e as luzes de navegação.

Tomei uma cerveja bem gelada no bar do clube, comi algumas coisas, improvisei como pude uma cama mais seca, e fui descansar, com a sensação de dever cumprido.

To lendo o livro do meu amigo Osvaldo Hoffmann – Retratos de Viagem - não consegui terminar devido ao mau tempo dos últimos dias, mas desde já, recomendo. Uma navegada de ida e volta, de Porto Belo ao Mediterrâneo, cheio de aventuras, como uma linguagem bem popular.

Acordei 6h da matina, do outro dia e já comecei a arrumar a bagunça no Moleque e prepará-lo para algumas obras. Depois do ocorrido estava em terra novamente como uma pessoa normal. De Salvador a Vitória fiz aproximadamente 500 milhas náuticas, a maior distância que percorri até agora sem paradas.

Desculpem pela inexistência de fotos dessa parte do Projeto, mas com a pane elétrica no barco fiquei sem meu carregador e as pilhas extras que tinha, deixei para o rastreador por satélite que levo a bordo. Nem por decreto uso essas pilhas para outros fins.

Durante minha estada em Salvador, passou-se o aniversário de 72 anos de meu querido pai, falecido ano passado.

Comentário do velejador Kan-chu, durante almoço no Yach Clube da Bahia – Salvador:

"Depois que fiz o Caminho de Santiago Compostela por duas vezes, e comecei a velejar em Solitário, fiquei rico, ou seja, descobri que dá pra viver com metade do que se vive".

Fotos:

1 - Moleque

2 - Entardecer

3 - Veleiro de um casal Holandes

4 - Veleiro com 2 casais Ingleses

5 - Entardecer

6 - Meu Amigo Péricles no ICES

7 - Moleque no Pier do ICES

8 - ICES

9 - Eu, Marins, Leandro Ries, Nando de Floripa e Namorada

10 - Minha Mãe e minha tia Celis na Austrália

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